Jejum e nova hegemonia
Depois de um período de total domínio verde e amarelo, nos anos 90, o século XXI começou dando a impressão de que os clubes argentinos, maiores vencedores da Libertadores na história, voltariam a dominar o cenário do futebol sul-americano.
Em 2000, o Boca Juniors, bicampeão em 1977 e 1978, chegou ao tricampeonato depois de um jejum de 22 anos e, de quebra, acabou com o sonho palmeirense de repetir o título do ano anterior.
Na primeira fase do torneio, o Boca ficou em primeiro do grupo que tinha ainda Peñarol, do Uruguai, Blooming, da Bolívia, e Universidad Católica, do Chile. Depois disso, passou pelo El Nacional, do Equador, nas oitavas-de-final, pelo rival River Plate nas quartas e pelo América do México na semifinal.
Na decisão, o título veio depois de dois empates – 2 a 2 em Buenos Aires e 0 a 0 em São Paulo. Nos pênaltis, o goleiro Marcos não conseguiu repetir o heroísmo do ano anterior e o Verdão acabou derrotado por 4 a 2, enquanto o Boca se tornava tricampeão.
Para o futebol brasileiro, no entanto, um dos episódios mais marcantes desta edição da competição foi o confronto entre Corinthians e Palmeiras nas semifinais. Depois de uma vitória do Timão por 4 a 3 e uma do Palmeiras por 3 a 2, o Verdão repetiu o feito de 99 e eliminou o rival nos pênaltis: 5 a 4. Na cobrança decisiva, Marcos defendeu a cobrança de Marcelinho Carioca.
Em 2001, o Brasil não teve representante na decisão, que, pela primeira vez, contou com a presença de um clube mexicano, o Cruz Azul, que enfrentou o Boca. Na decisão, depois de perder o primeiro jogo, em casa, por 1 a 0, os mexicanos conseguiram uma façanha: derrotaram o Boca, pelo mesmo 1 a 0, em pleno estádio de La Bombonera. Nas cobranças de pênaltis, no entanto, mais uma vez os argentinos se deram melhor.
No ano seguinte, os grandes clubes brasileiros ainda não haviam se estruturado para disputarem a Libertadores com reais chances de chegar ao título. Dessa forma, coube ao São Caetano levar o nome do país a mais uma final.
O resultado, porém, não poderia ser mais decepcionante. O Azulão enfrentou o Olímpia, do Paraguai, e venceu a partida de ida, fora de casa, por 1 a 0. No jogo de volta, chegou a sair na frente, no Pacaembu, mas acabou levando a virada, perdeu por 2 a 1 no tempo normal, e por 4 a 2 nos pênaltis, ficando com o vice-campeonato.
A primeira metade da década ainda presenciou outros capítulos importantes da história da competição. Em 2003, o Boca Juniors voltou a derrotar um brasileiro na final. Desta vez, a vítima foi o Santos, que perdeu por 2 a 0 em Buenos Aires e por 3 a 1 em São Paulo. Com estas vitórias, a equipe Argentina chegou ao quinto título na Libertadores.
No ano seguinte, contudo, a hegemonia do Boca finalmente acabou. Mais uma vez os “xeneizes” chegaram à final, considerados absolutamente favoritos.
Mas a equipe colombiana do Once Caldas, que já havia eliminado Santos e São Paulo, tornou-se uma das maiores zebras da história da competição ao vencer o Boca por 2 a 0 nos pênaltis (no jogo de ida, na Argentina, empate por 0 a 0, e na volta, 1 a 1 em Manizales, na Colômbia).
Organização dá resultado
O jejum brasileiro na Libertadores depois do título palmeirense de 99 durou seis anos. Para compensar, em 2005, o título nacional já estava garantido antes mesmo da realização da final. Pela primeira vez na história, dois representantes do mesmo país decidiram a competição: São Paulo e Atlético-PR.
Considerados dois dos times mais profissionais e bem planejados do país, com estádios bem estruturados e elencos equilibrados, o Tricolor Paulista e o Furacão Paranaense foram em 2005 o retrato do novo modelo de sucesso para os times brasileiros nos últimos anos: para ganhar títulos, é preciso profissionalismo e pés no chão.
Às vésperas da decisão, uma polêmica. A chegada do Atlético-PR à decisão foi uma surpresa até para seus dirigentes, o que acabou tirando do clube o direito de jogar a primeira partida da final em casa, já que a Arena da Baixada tinha capacidade menor que a prevista no regulamento da Libertadores.
Assim, o primeiro jogo aconteceu no estádio do Internacional, o Beira-Rio, em Porto Alegre. E terminou com um empate por 1 a 1. No jogo de volta, no Morumbi, o São Paulo não tomou conhecimento do Rubro-Negro e conquistou o tricampeonato ao golear por 4 a 0, gols de Amoroso, Fabão, Luizão e Diego Tardelli.
Em 2006, na última edição da Copa Libertadores da América, a fórmula de sucesso se repetiu e, pela segunda vez na história, a decisão foi disputada por dois times brasileiros. Mais uma vez, também, os palcos da final foram o Beira-Rio e o Morumbi.
Desta vez, no entanto, os protagonistas eram, de fato, os donos dos respectivos estádios: Internacional e São Paulo. Liderado pelo técnico Abel Braga e pelos atacantes Fernandão e Rafael Sóbis, o Colorado conseguiu desbancar o favoritismo paulista e conquistar o título inédito, o mais importante da história do clube gaúcho.
No jogo de ida, em pleno Morumbi, o Inter chegou a fazer 2 a 0, com dois gols de Rafael Sóbis. Mas o São Paulo descontou com um gol do zagueiro Edcarlos e foi para Porto Alegre ainda com esperanças de conquistar o tetra. Um empate por 2 a 2, no entanto, oficializou o título colorado. Os gols na final foram marcados por Fernandão e Tinga, para o Inter, e Fabão e Lenílson, para o São Paulo.
Em 2007, os brasileiros eram os principais candidatos ao título, porém, quando tomaram conhecimento do verdadeiro perigo, já era tarde demais. O esquadrão do Boca Juniors, com Riquelme, considerado o diferencial na última edição, chegou à final pelas beiradas e, sem fazer ruídos, tirou o caneco das mãos do Grêmio, que desenhava o título após eliminar São Paulo e Santos da competição.
Nas finais, duas vitórias dos "hermanos". A primeira, na Bombonera, por 3 a 0, praticamente já definia o campeão. Eufóricos com a grande campanha Tricolor, os gremistas lotaram o Estádio Olímpico para a partida de volta. Só não contavam com mais uma derrota, desta vez por 2 a 0, com dois gols de Riquelme.
Na edição 2008 da Libertadores, a volta do mesmo Riquelme ao Boca Juniors assusta os brasileiros e faz com que o clube boquense seja novamente um dos grandes cadidatos à conquista. Resta saber se os ainda desentrosados Cruzeiro, São Paulo, Santos, Flamengo e Fluminense serão capazes de impedir o sétimo caneco do Boca na competição, que poderá se igualar ao também argentino Independiente como o recordista de títulos da Copa Libertadores da América.